RENATO RABELO nasceu em Ubaíra, Bahia, no dia 22 de fevereiro de 1942, e morreu no domingo de carnaval, em São Paulo, uma semana antes de completar 84 anos. Deixa como legado uma imensa contribuição para a democracia, para as ideias socialistas no Brasil, e um imortal exemplo de dirigente partidário firme, amplo, flexível e generoso.
SÁBIO, SEGURO E VISIONÁRIO, fez parte da geração de ouro dos anos 1960. Sua caminhada começou aos 13 anos de idade, “ao assumir o cargo de secretário-geral do grêmio estudantil da Escola Nossa Senhora das Mercês, em Santo Antônio de Jesus, no clima da sucessão presidencial que elegeria Juscelino Kubitscheck presidente e João Goulart, vice, em 1955. Foi quando tomou conhecimento da Juventude Estudantil Católica (JEC)” – explica o site PCdoB. Presidente da União dos Estudantes da Bahia em 1965, e vice-presidente da UNE em 1966, foi forçado a interromper o curso de Medicina da UFBA no sexto ano, por conta da repressão militar.
UM DOS LÍDERES da Ação Popular, Rabelo jogou enorme papel na formulação de uma linha revolucionária combativa, não-dogmática, que se afirmou como hegemônica entre a juventude, a partir de 1968. Nascida do movimento estudantil católico, a AP avançou para o Marxismo-Leninismo, e findou por se dissolver pela migração da mais expressiva parcela de sua militância para o PCdoB, num processo liderado por ele, Haroldo Lima, Aldo Arantes, Péricles de Sousa, Loreta Valadares, Gilse Cosenza, dentre outros quadros. Essa flexão estratégica, ocorrida na fase mais terrorista da ditadura, por volta de 1972, é o marco mais expressivo na história das esquerdas brasileiras entre 1962 e 1979.
CONHECI RENATO em 1980, na primeira reunião nacional da Tribuna Operária. Impactado pela tremenda surpresa das presenças de João Amazonas e José Duarte, ícones facilmente identificáveis a olho nu, nem procurei saber o nome de outros dirigentes naquele evento. Levei mais um susto, quando, ao final das discussões sobre o jornal, Amazonas se dirigiu a mim: “Camarada de Alagoas, vamos conversar”. Militante com menos de dois anos de casa, considerava impensável um papo com o principal reorganizador do Partido Comunista do Brasil. Numa das salas da sede da TO, na Rua Conselheiro Ramalho, em São Paulo, me sentei defronte ao idoso de longa e lisa cabeleira branca, que, como um cocar, salientava seus traços índios. Ao lado dele, um companheiro mais jovem, entre 40 e 50 anos, bigodes e cabelos densos e pretos, curtos. Novo choque: João me pediu uma descrição detalhada do PCdoB em Alagoas. Engoli em seco. Expliquei não ter preparado tal relatório por conta do risco de alguma ação da repressão. O velho ajeitou a cabeleira e me olhou como quem dissesse: “Quanta infantilidade…”. Improvisei um relato – troncho, incompleto. O mais novo sorriu, cofiou o bigodão, e me deu uma força: “Posição correta. Não era uma reunião convocada como partidária, e a repressão ainda está presente”. Amazonas olhou para ele (Renato Rabelo, depois soube o nome) e voltou a me mirar, mais condescendente: “Está certo, camarada, está certo”.
POR DUAS DÉCADAS, entre 1980 e 2000, reuni-me muitas vezes com João e Renato. Sempre com relatórios prontos na cabeça. Depois da morte de Amazonas, Rabelo manteve a rota com brilhantismo, foi um dos principais artífices da amplitude da frente nacional em torno de Lula. Renato sabia ouvir, compreendia as divergências, buscava soluções objetivas para os dilemas políticos e ideológicos. Em 2013, após 12 anos na presidência do PCdoB, se afastou do posto para enfrentar um câncer. Lutou bravamente durante mais 13 anos, sem renunciar à militância, e cada dia foi uma vitória da vida. Ao grande Renato, esse relato – troncho, incompleto, mas do fundo do coração.

