“Pobres e ricos têm tratamento idêntico em sistema único no Canadá”, diz o médico brasileiro Fabio Cury
Com passagem pelo SUS (Sistema Único de Saúde) no Paraná e há mais de 10 anos atuando no Canadá, o médico brasileiro Fabio Cury acumula experiência nos dois sistemas públicos de saúde e acredita que o Brasil poderia aproveitar alguns aspectos do modelo canadense.

Para Cury, que é especializado em rádio-oncologia, o tratamento do câncer com radiações ionizantes (também conhecido como radioterapia), uma das grandes diferenças entre os dois países é a presença, no Brasil, de dois sistemas de saúde, um público e outro privado, diferentemente do que acontece no Canadá.
“A vantagem de ter um sistema único realmente único (como acontece no Canadá) e não ter um sistema paralelo, como o sistema privado ou o plano de saúde, é que todo mundo tem que ser tratado, e bem tratado, sob aquele sistema (público) ”, disse Cury.
“(No Canadá) Toda a população tem acesso aos mesmos tratamentos, aos mesmos médicos, independentemente da sua classe social. – observa o médico. “No Brasil, uma pessoa com mais recursos será tratada em um hospital particular, e outra, com menos recursos, às vezes não será sequer tratada, ou será tratada em um hospital com menos tecnologia”, diz.
O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado no Brasil com a redemocratização do país e a promulgação da Constituição de 1988, tendo como uma de suas inspirações o sistema de saúde pública britânico, o NHS (National Health Service). Na forma como cada sistema é operado é que residem profundas diferenças.
Enquanto no Brasil, os médicos de formação generalista como clínico geral e o médico de família são pouco valorizados, no Reino Unido esses profissionais, chamados de general practitioners (GP) são o eixo central do atendimento.
Dos aproximadamente 65,3 mil médicos registrados como GP (incluindo os sistemas público e privado), 61% atuam no serviço público, onde quase toda a população busca atendimento, inclusive pessoas com renda equivalente à classe média alta brasileira.
Não existe um equivalente direto ao GP no Brasil. Esse profissional está entre o que seria o médico de família e o clínico geral e existem apenas 4 mil médicos de família no Brasil e com uma formação estigmatizada dentro da categoria médica.
“É preciso valorizar a atenção básica de saúde no Brasil. No sistema britânico, é o oposto: há uma supervalorização do GP”, afirma o professor da USP Oswaldo Tanaka, que já morou no Reino Unido e estudou o NHS.
No SUS tem falhas, muito roubo, muita incompetência, mas é absurdamente eficiente e eficaz. Custa muito caro e tem um potencial incrível de melhoria.

“Aqui tem fila, mas ninguém morre na fila”, afirma Cury, ao observar que o tempo de espera costuma ser menor que o registrado no SUS.
Ao contrário do Brasil, no Canadá o paciente não tem a opção de pagar mais para ser atendido mais rápido na rede particular.
Mas de modo geral, em caso de descontentamento com algum serviço, a reação da população costuma ser reclamar e exigir seus direitos ao tratamento de saúde de ponta o que geralmente não acontece com a população brasileira, normalmente pacata e até submissa.
Fonte: http://www.bbc.com


