“MORTE DE JK NÃO FOI ACIDENTE”: essa assertiva frequentou os títulos de matérias em todos os noticiários há duas semanas. Era a repercussão de furo da Folha de São Paulo, que, em 8 de maio, divulgou o relatório elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, estudo em apreciação pelo conselho da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
EM SI, NÃO É NOVIDADE. É uma obviedade que tromba com a versão oficial há 50 anos. Juscelino Kubitscheck morreu em 22 de agosto de 1976, quando o carro em que viajava foi esmagado por uma carreta no quilômetro 165 da Via Dutra, nas proximidades de Resende (RJ). Morreu juntamente com Geraldo Ribeiro, experiente motorista e amigo por mais de 30 anos, desde quando JK foi prefeito de Belo Horizonte. O relatório de Maria Cecília tem mais de cinco mil páginas, incluindo detalhadas análises documentais e periciais.
EM 1976, A DITADURA VIVIA uma luta intestina entre a abertura proposta pelo general que ocupava a presidência, Ernesto Geisel, e os radicais que dominavam os chamados “porões da ditadura” que, viciados em torturar, matar e roubar, não queriam abrir mão do terrorismo que praticavam. Essa chamada “linha dura” se lançou em novos assassinatos para tentar impor seu poder dentro do próprio regime. Depois da morte “acidental” de JK, os militares promoveram – abertamente – a Chacina da Lapa, em 16 de dezembro, matando três dirigentes do PCdoB, em São Paulo. Antes, em 17 de janeiro, assassinaram sob tortura o operário Manoel Fiel Filho (alagoano), na capital paulista. Em 6 de dezembro, o ex-presidente João Goulart morreu repentinamente, aos 57 anos de idade, em Mercedes, Argentina, onde estava exilado. Coincidentemente, 1976 foi o auge da criminosa Operação Condor, organizada pela CIA em parceria com os órgãos de repressão das ditaduras latino-americanas. Em 21 de setembro de 1976, o chileno Orlando Letelier, ex-chanceler do governo Allende, foi assassinado em Washigton, capital dos Estados Unidos, onde vivia exilado. Entre 1975 e 1983, se estima que essa cooperação terrorista internacional tenha assassinado, no mínimo, 402 opositores aos regimes ditatoriais na América do Sul.
IVAN BARROS, alagoano residente no Rio de Janeiro, então com 33 anos, repórter da revista Manchete, foi o primeiro jornalista a chegar no local da morte de JK. Testemunhou os militares alterando a cena do suposto acidente. Como advogado, protestou contra aquela irregularidade, e recebeu um seco “ordens superiores!”. Ivan conhecia pessoalmente JK e Geraldo, pois ambos frequentavam regularmente o prédio da Manchete, onde o ex-presidente tinha um escritório pessoal cedido pelo empresário Adolpho Bloch. Desde então, Ivan Barros escreve artigos, concede entrevistas e presta depoimentos sobre a morte de Juscelino Kubitscheck. É autor do livro “O Assassinato de JK” (2014, 400 páginas), trabalho consistente usado como base para outras publicações, como “O assassinato de JK pela ditadura: documentos oficiais” (2016, 800 páginas), obra que uma das autoras, a pesquisadora paulista Lea Vidigal, veio até Palmeira dos Índios especialmente para o entrevistar. Fundador do grupo Tribuna do Sertão, Ivan, o bravo palmeirense, merece redobrados parabéns por sua contribuição decisiva (e corajosa) na afirmação da verdade sobre esse acontecimento de fundamental importância para a história do Brasil e da América Latina.
NO MARCO DOS 50 ANOS da morte de Juscelino Kubitscheck de Oliveira – um dos mais valorosos presidentes da república brasileira, democrata histórico, humanista, desenvolvimentista –, passar a limpo as circunstâncias de sua tragédia é uma obrigação cidadã. Viva JK!