
Decano da Câmara, o deputado Miro Teixeira (Rede-RJ) votou a favor do impeachment de Collor e também votará para que Dilma seja afastada. Na comparação entre o que viveu e vive agora, Miro recorre, desta vez, a uma metáfora que remete ao paladar:
Para Miro, há diferença grande entre os dois processos. No de 1992, a apuração foi feita pelo Congresso, que tinha em mãos as provas. Agora, a apuração vem da Lava-Jato e os parlamentares são informados pela imprensa. Ele afirma que, sem Lava-Jato e o telefonema de Dilma para Lula em que ela trata do termo de posse dele, o clima poderia ser diferente:
— Contra Dilma não existem as acusações que existiam contra Collor, de corrupção pessoal. Mas há fatos paralelos que criam uma convicção de que ela perdeu a condição de governar. É o que nos permite ter a consciência tranquila e esperar que o Brasil fique melhor com qualquer resultado.
‘AGRADEÇO A SEGUNDA CHANCE’
Para deputados que votaram pela manutenção de Collor, porém, a sensação é de alívio e redenção. Átila Lins (PSD-AM) diz que errou em 1992 por inexperiência, o que custou a estagnação de sua carreira política. Desta vez, não há quem o faça ficar contra a opinião pública:
— Agradeço a Deus a segunda chance que me dá de recompor minha história como político e com o povo do Amazonas. É a chance de me reconciliar comigo mesmo. Eu disse ao (Gilberto) Kassab (presidente licenciado do PSD): não tenho como repetir o erro de 1992!
Duas décadas e meia atrás, Nelson Marquezelli (PTB-SP) era líder do governo Collor e permaneceu com ele até o fim. Desta vez, sente-se livre para votar contra Dilma, mesmo tendo indicado cargos no governo. Ele acredita, ao contrário de Miro, que os motivos para o impedimento nos dois casos se assemelham (“falcatruas nos governos”). Marquezelli afirma apoiar o impeachment de Dilma com a consciência tranquila:
—A sensação agora é a de que teremos dias melhores. E, hoje, estou ao lado da maioria. É bem melhor.
Aos 79 anos, o deputado Paes Landim (PTB-PI) era aliado de Collor em 1992. Quando chegou sua vez de votar, porém, já havia dois terços a favor do impedimento, e, por isso, acabou ficando contra o aliado, “com dor no coração”. Desta vez, está indefinido, pois a votação envolve amigos e muita pressão:
— No caso do Collor, foi terrível, mas já não valia o sacrifício quando eu fui votar. Desta vez, também é. Sou muito amigo do Armando Monteiro (ministro do Desenvolvimento) e do governador (petista) do meu estado, Wellington Dias. Minha tendência é votar contra o impeachment, mas tem muita pressão do Roberto Jefferson e sou muito amigo do Michel (Temer) — diz o deputado do Piauí. — É o diabo
A deputada Benedita da Silva (PT-RJ) votou a favor do impeachment de Collor, mas é contra o de Dilma. Ela afirma que nem em 92, nem agora, sentiu-se constrangida. Mas vê diferenças gritantes entre os processos:
— Contra o Collor havia a comprovação de crimes. A presidente Dilma só cumpriu com o dever dela e não atrasou o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida. É o cúmulo que se faça isso (impedimento) pelo que ela fez de bom! Na época do Collor, havia unidade, da universidade aos morros, para que ele saísse. Agora, é o apoio à Dilma das universidades aos morros.
fonte:oglobo