Uma audiência pública realizada nesta sexta-feira (8), no auditório João Sampaio, no Cesmac, bairro do Farol, em Maceió, reacendeu o debate sobre a gravidade dos impactos provocados pela mineração de sal-gema da Braskem. O evento, que reuniu pesquisadores, representantes do poder público e moradores das áreas afetadas, terminou em protesto, com duras críticas à Defesa Civil e denúncias de supostos acordos políticos envolvendo autoridades e a mineradora.
Durante o encontro, foi apresentado um novo estudo técnico-científico conduzido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em cooperação com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e especialistas internacionais. A pesquisa reforça o alerta sobre o deslocamento contínuo do solo nas áreas atingidas e sugere a revisão imediata do atual mapa de criticidade da região.
Segundo o professor Marcos Eduardo Hartwig, responsável pela coordenação do estudo, os dados mais recentes indicam que parte da infraestrutura urbana continua sofrendo com movimentos verticais e horizontais que ameaçam a estabilidade de imóveis e sistemas essenciais. A Estação de Tratamento de Água Cardoso, por exemplo, localizada nas proximidades da barragem do Catolé e do bairro do Bebedouro, apresenta sinais estruturais preocupantes, com rachaduras e vazamentos persistentes mesmo após intervenções.
“Nas regiões dos Flexais, identificamos deslocamentos horizontais de até 10 milímetros por ano — o dobro do limite previsto pelo mapa de criticidade atual. Isso reforça a necessidade de revisão técnica urgente e medidas mais eficazes de monitoramento”, destacou Hartwig. O pesquisador também defendeu a criação de um mapa específico para avaliar o nível de danos nas periferias do território afetado.
A apresentação técnica, no entanto, foi ofuscada por manifestações acaloradas ao final da audiência. Movimentos sociais, entre eles o Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB), acusaram a Defesa Civil de omissão e questionaram a condução política do caso. “A Defesa Civil mentiu” e “O verdadeiro inimigo está nos gabinetes dos políticos” foram algumas das frases entoadas por moradores revoltados com o andamento das ações institucionais.
Um dos momentos mais tensos foi o discurso do defensor público Ricardo Melro, recentemente afastado do Núcleo de Proteção Coletiva da Defensoria Pública do Estado de Alagoas. Em pronunciamento emocionado, ele reafirmou seu compromisso com as vítimas da tragédia e rebateu críticas. “A ciência não tem lado. Todas as nossas ações foram construídas com base técnica, sempre ouvindo as vítimas e buscando justiça”, declarou Melro, sob aplausos de parte do público.
O afastamento do defensor gerou forte reação entre os movimentos sociais. Em nota, o MUVB lamentou a decisão e classificou a desmobilização do núcleo como um retrocesso. “A equipe liderada por Ricardo Melro era o único espaço institucional que verdadeiramente ouvia as vítimas. Sua saída enfraquece a resistência contra a Braskem e favorece interesses econômicos”, afirmou a entidade.
A audiência reforçou a sensação de insegurança entre os moradores e trouxe à tona, mais uma vez, a desconfiança em relação às autoridades responsáveis pela fiscalização e amparo às vítimas. Enquanto o solo de Maceió segue em movimento, cresce também o clamor por transparência, responsabilidade e justiça.

