Em 2023, imagens inundaram as redes sociais, e eram dignas de um cenário pós-apocalíptico: milhares de carros elétricos brancos, aparentemente novos, estavam “apodrecendo” em campos abertos na China.
O veredito de influenciadores como Serpentza, que divulgou e “viralizou” o vídeo, foi imediato, alimentando uma narrativa de fraude industrial e números inflados.
A teoria era de que as montadoras chinesas maquiavam as vendas para cumprir metas impostas pelo governo chinês. Seriam carros emplacados e não vendidos, que representariam o fracasso na adoção de veículos elétricos — a prova definitiva de que a grande aposta da China nos elétricos não teria futuro industrial.
Qual era a realidade?
Mas, para quem vive o dia a dia do setor automotivo e prefere os dados técnicos e a realidade do mercado aos escândalos e vídeos caça-cliques espalhados pelos usuários do YouTube e outras redes sociais, o cenário em abril de 2026 revela que a verdade é bem menos cinematográfica e muito mais positiva.
Hoje, os carros eletrificados chineses estão dominando diversos mercados – eles chegaram, inclusive, à liderança de vendas em mercados exigentes como o do Reino Unido, além de terem colocado o BYD Dolphin Mini no top 10 de vendas aqui no Brasil.
O “contrassenso” da desinformação
Já há algum tempo, meios de comunicação sérios, como a agência de notícias Reuters, comprovaram que as informações propagadas por Serpentza e outros “influenciadores” eram, na verdade, pura desinformação.
A primeira grande farsa era sobre o estado dos veículos. Diferente do que foi dito nos vídeos e espalhado pela internet, as imagens, na verdade, não eram de unidades zero-quilômetro descartadas pelas fabricantes. Elas eram ativos de uma bolha que estourou: o car-sharing agressivo de 2016-2019.
Tratavam-se de frotas de locadoras e diferentes startups de mobilidade que operavam com modelos de primeira geração — carros com autonomia bastante limitada (que raramente passavam dos 150 km reais) e tecnologia obsoleta, que não resistiram ao corte de subsídios e à evolução meteórica do mercado de carros elétricos chineses.
Usar o descarte desses veículos elétricos compartilhados de dez anos atrás para questionar a evolução das vendas e da qualidade, além da liderança tecnológica da China no investimento e desenvolvimento dos carros eletrificados foi, no mínimo, um erro crasso de análise jornalística.
Cemitério de carros elétricos: de passivo a matéria-prima
Hoje, três anos depois da fraude dos influenciadores, os famosos “cemitérios de carros elétricos” praticamente desapareceram. E não foi por nenhum tipo de “milagre” ambiental, mas por uma oportunidade comercial que o alarde do vídeo original ignorou:
Mineração urbana: com o avanço da hidrometalurgia em 2024 e 2025, o custo de reciclar as baterias daqueles carros que ficaram abandonados por um período tornou-se menor do que minerar lítio “do zero”. O que era um “lixo visual” virou um estoque estratégico. Empresas como a Brunp (subsidiária da CATL, uma das maiores fabricantes de bateria do mundo, fornecedora da Geely, entre outras marcas) limparam esses pátios e conseguiram recuperar até 99% do cobalto e níquel das células velhas.
A “segunda vida” das baterias: já em relação às baterias que ainda mantinham integridade, elas foram removidas e hoje estabilizam redes de energia solar ou alimentam estações de recarga rápida. O que não servia mais para a dinâmica de um carro moderno serve perfeitamente para armazenar energia de rede, uma solução cada vez mais buscada por quem gera energia em casa durante o dia e precisa dela durante a noite (para carregar carro elétricos, por exemplo).
Conclusão: não acredite em que tudo que lê (ou vê)
O fenômeno dos cemitérios de carros elétricos não foi um sintoma de falta de demanda — o mercado chinês continua batendo recordes com modelos cada vez mais eficientes —, mas sim o resíduo de um ciclo de aprendizado industrial e empresarial.
O jornalismo sério, como fazemos na MOTOR SHOW, separa o fato do factoide: o que o Serpentza chamou de “fim da farsa chinesa”, a indústria transformou em insumo para os elétricos de 800V que avaliamos hoje.
No fim, os cemitérios sumiram porque o “lixo” virou dinheiro. A verdadeira farsa, no fim das contas, foi a narrativa de quem usou um acontecimento relacionado a um modelo de negócios experimental, que fracassou, e a uma frota obsoleta, para tentar prever um futuro que nunca chegou — e nem deve chegar.
