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OMS vai retomar estudos com hidroxicloroquina após avaliação de segurança

Diretor da entidade disse que, com base nos dados disponíveis, não há razão para mudar o protocolo

OMS (Organização Mundial da Saúde) decidiu retomar os estudos clínicos com hidroxicloroquina para tratamento da Covid-19 (doença provocada pelo novo coronavírus) no programa internacional Solidarity.

A entidade havia suspendido, em 25 de maio, as pesquisas com o medicamento para reavaliar sua segurança depois da publicação de um estudo na revista médica inglesa Lancet com dados de 96 mil pacientes que indicava que as duas drogas, hidroxicloroquina e cloroquina, estavam relacionadas a maior mortalidade.

Segundo a cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, comitê independente que avaliou os dados obtidos até agora pelo Solidarity e por outros estudos não viu indícios de que a hidroxicloroquina esteja relacionada a maior mortalidade, o que permitiu a retomada dos experimentos.

Soumya ressaltou porém que “não há evidência até agora de que qualquer droga reduza a mortalidade ou a severidade da doença” e que a OMS mantém a orientação para que cloroquina e hidroxicloroquina sejam usadas apenas em experimentos, em hospitais e sob supervisão médica.

Segundo a cientista-chefe, que só é possível ter certeza de que foi um medicamento que provocou determinado efeito em estudos randomizados (com pacientes escolhidos ao acaso) em que outras características possam ser controladas, para evitar interferências.

O estudo publicado pela Lancet tem sido alvo de questionamentos. Um grupo de mais de cem de cientistas que escreveu uma carta aberta endereçada ao editor da Lancet, Richard Horton, e aos autores do artigo requisitando detalhes sobre a origem dos dados e pedindo que o estudo seja validado de forma independente pela OMS (Organização Mundial da Saúde) ou por outra instituição.

Os cientistas criticaram a metodologia do estudo e a recusa dos autores de revelar informações sobre os hospitais que cederam dados sobre os pacientes ou mesmo de nomear os países onde eles se localizam. A empresa que detém a base de dados é a Surgisphere, que diz ter acesso aos prontuários médicos de pacientes ao redor do mundo.

Em seguida, a revista publicou dados brutos dos hospitais e correções referentes ao artigo. Segundo a publicação, porém, os resultados e conclusões continuam sendo os mesmos. “The Lancet encoraja o debate científico e publicará respostas ao estudo, junto com uma resposta dos autores, na revista”, disse em rede social. As correções já foram feitas na versão online e estarão também na versão impressa.

Os testes do Solidarity estão sendo feitos em 245 hospitais de 18 nações, com cerca de 3.000 pacientes e 885 médicos envolvidos.

O estudo é do tipo randomizado, ou seja, os pacientes são escolhidos de forma aleatória, o que evita que os resultados sejam afetados por viés na seleção. Os participantes são divididos em dois grupos ?um recebe o medicamento a ser testado e o outro recebe um placebo (produto que imita o remédio, mas é inócuo). As características dos pacientes são controladas, para isolar depois o efeito da droga de outras eventuais causas.

Para evitar interferências que prejudiquem as conclusões do estudo, ele é do tipo duplo cego, ou seja, nem o paciente nem os pesquisadores sabem quem está recebendo o remédio e quem está tomando o placebo. Por isso, os dados são monitorados por grupos independentes de especialistas, como a DSMC (Conselho de Monitoramento de Dados e Segurança), que revisou os estudos com a hidroxicloroquina.

Os governos da França, da Bélgica e da Itália deixaram de usar a hidroxicloroquina no tratamento de pacientes de Covid-19 depois que a OMS anunciou a suspensão de seus testes.

No Brasil, o uso das duas drogas é defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, e em 20 de maio o Ministério da Saúde alterou o protocolo para ampliar seu uso também por pacientes com sintomas leves de Covid-19. Até então, a permissão era para pacientes graves e críticos e com monitoramento em hospitais.

TRANSMISSÃO INTENSA

O diretor-executivo da OMS, Michael Ryan, afirmou nesta quarta (3) que a transmissão comunitária de coronavírus continua intensa no Brasil e que o país é um dos que preocupam a OMS, ao lado do Haiti, da Nicaragua e do Peru.

“Quando a transmissão comunitária se instala, é muito difícil interrompê-la. Exige várias intervenções em conjunto, coordenação entre todos os níveis de governo, comunicação clara, adesão da população e decisões baseadas em conhecimento científico”, disse ele.

Segundo a líder técnica da entidade, Maria van Kerkhove, a experiência de países que foram mais afetados pela pandemia (como Itália ou Espanha) mostra que, quando a transmissão está fora de controle, é preciso priorizar os locais onde há mais concentração de vírus circulando: aqueles em que há mais contato entre as pessoas.

“Se os recursos são limitados, os governos são mais bem-sucedidos se usarem nos locais mais vulneráveis, focar os testes nesses locais, para entender melhor como o vírus está se espalhando e mobilizar sua estrutura de saúde para ir reduzindo o problema aos poucos”, disse ela.

Maria também afirmou que profissionais de saúde precisam ter prioridade nos testes e em medidas de prevenção e tratamento. Segundo ela, o número de profissionais de saúde doentes e mortos em alguns países da América Latina “está alarmante”.

Por Folhapress

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