
Uma das gravações mostra um padre lendo o depoimento de uma pessoa possuída que, durante uma sessão de exorcismo, anuncia a morte do Papa Francisco. O relato provoca a gargalhada dos sacerdotes presentes, incluindo o fundador e superior-geral da sociedade, monsenhor João Sconamiglio Clá Dias. Outro vídeo mostra o momento em que mons. Clá estaria praticando um ritual de exorcismo em duas jovens de uma forma que não condiz com a fórmula prevista no rito romano. Pelo menos outros sete vídeos, que mostram outros padres da sociedade praticando rituais, teriam sido vazados na internet.
Dias após a divulgação das imagens, mons. Clá anunciou, por meio de uma carta, sua renúncia ao cargo de superior-geral da associação. No texto, o sacerdote alega a idade avançada — 77 anos — como motivo para seu afastamento. Cinco dias antes, porém, o jornalista Marco Tosatti, havia noticiado que o Vaticano estaria preparando uma comissão para investigar os Arautos. De acordo com a notícia, publicada no site “La nuova bussola quotidiana”, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica já estaria montando uma comissão, composta de um bispo, uma religiosa e um canonista, afim de analisar a situação dos Arautos do Evangelho.
Sobre as imagens vazadas na internet, os Arautos afirmam que os vídeos foram “subtraídos de modo indevido, com divulgação alterada. Porquanto a Associação tomou as providências necessárias, segundo os princípios do Direito Canônico e deram como assunto concluso”. A respeito da renúncia do fundador, a associação afirma que já estava prevista.
O conteúdo do vídeo
No vídeo, um padre dos Arautos do Evangelho toma algumas folhas com a transcrição do que seria um diálogo entre um sacerdote da sociedade e o demônio durante o que teria sido uma sessão de exorcismo.
Durante a sessão, em mais de um momento, o sacerdote pergunta sobre a Santa Sé e o Papa Francisco. “O Vaticano? É meu, é meu! Faz tudo o que eu mando, é um estúpido!”, afirma o demônio, gerando gargalhadas dos padres e do próprio Mons. Clá.
“Obedece a tudo que mando”, acrescenta o demônio, o qual assegurou que “o Papa vai morrer em um tombo” e que “o doutor Plínio está incentivando a morte” do Papa. Nesse momento, os sacerdotes também exclamam “fenomenal”, enquanto Mons. Clá sorri.
O vídeo, na íntegra, pode ser visto na reportagem do “La Stampa”. O trecho que cita o Papa Francisco e o Vacitano começa a partir do minuto 41m40s.
A divisão da TFP
Em 1995, com a morte do jornalista e advogado Plínio Corrêa de Oliveira, a TFP se viu em meio a uma disputa interna, que acabou culminando em uma redefinição do perfil da sociedade e na expulsão de membros mais antigos. Daí, surgiram dois grupos: a Associação dos Fundadores e os Arautos do Evangelho.
Braço direito do Dr. Plínio — como era chamado na sociedade — por quase 30 anos, o monsenhor Clá chamava a atenção pela facilidade que tinha com os jovens e pelo perfil religioso, destoante da maioria leiga dos membros da TFP. Sob a liderança de mons. Clá que, em 1997, dissidentes levaram a disputa pelo controle da TFP à Justiça. Os Arautos perderam em primeira instância, em 1998, mas conquistaram a posse do nome TFP em 2004, além de bens da sociedade.
Os Arautos do Evangelho receberam a chancela do Vacitano no dia 22 de fevereiro de 2001, quando foi reconhecido como uma Associação Internacional de Fiéis de Direito Pontifício.
